“Só devemos colocar na pele aquilo que poderíamos comer.”
Esta frase, vinda da sabedoria ayurvédica, abriu a conversa e definiu o tom deste episódio. A pele, sendo o maior órgão do corpo humano, não é só uma barreira — é um canal. E tudo o que nela colocamos, o corpo absorve.
Mas será que temos noção da quantidade desmedida de produtos sintéticos que usamos todos os dias? E do seu efeito cumulativo na nossa saúde?
A Sílvia Martins é um exemplo raro de alguém que alia uma formação científica sólida a uma ligação visceral à terra. Doutorada em fitoquímica e com uma longa carreira em investigação, foi no momento em que decidiu parar — sem certezas, mas com escuta — que a verdadeira transformação começou.
Primeiro no Brasil, depois em Portugal, criou o projeto Sentidos da Terra, onde une o conhecimento académico ao saber ancestral das plantas. Hoje, vive com a família numa quinta no Norte de Portugal, onde transforma e ensina o uso consciente da natureza.

“Cada produto tem uma quantidade mínima de ingredientes tóxicos. Mas se usarmos tudo ao mesmo tempo e durante anos, que impacto terá na nossa saúde?”
Sílvia Martins, Sentidos da Terra
Produtos de uso diário como champôs, cremes, maquilhagem, desodorizantes ou protetores solares contêm, na sua maioria, conservantes, fragrâncias sintéticas, sulfatos e parabenos — ingredientes que, embora regulamentados individualmente, acumulam-se silenciosamente no organismo ao longo dos anos.
A grande questão não está apenas nos rótulos, mas no número de produtos que usamos, todos os dias, ao longo de uma vida. E é aqui que entra o alerta maior: o impacto cumulativo.
Sim — quando feita com ciência, qualidade e consciência. A eficácia de um produto natural depende da matéria-prima, do modo de preparação, mas também da forma como cuidamos do nosso corpo.
“Não vale a pena usar um creme natural com colagénio vegetal se não dormimos bem, não bebemos água e não cuidamos da nossa alimentação.” — relembra a Sílvia.
A cosmética natural é parte de um todo. Não é uma solução mágica, mas um caminho de coerência entre o que colocamos na pele e como vivemos.
A Sílvia Martins traz clareza a uma questão que ainda levanta muitas dúvidas: afinal, qual é a diferença entre os protetores solares convencionais e os naturais? E o que devemos ter em conta para fazer escolhas mais conscientes?
A maioria dos protetores convencionais utiliza filtros químicos. Estes são absorvidos pela pele, onde atuam convertendo a radiação UV em calor. Mas a sua eficácia tem um custo: penetram na corrente sanguínea, são potenciais disruptores endócrinos e, em muitos casos, estão associados a impactos negativos no ecossistema marinho, especialmente nos recifes de coral.
Por outro lado, os filtros físicos ou minerais, como o óxido de zinco não-nano, funcionam de forma muito diferente. Em vez de serem absorvidos, ficam à superfície da pele, criando uma barreira física que reflete os raios UV. São eficazes, seguros e mais gentis tanto com o corpo como com o planeta.
E aqui, a Sílvia relembra um ponto essencial: menos químicos, mais proteção real. Não se trata apenas de proteger a pele de queimaduras — trata-se de olhar para a saúde como um todo, respeitando os nossos ritmos, os nossos sistemas e o mundo à nossa volta.





Este episódio não é um apelo à rigidez ou à perfeição. É um convite à consciência. Não se trata de “ser 100% natural”, mas de colocar em causa o excesso de químicos que acumulamos no corpo, muitas vezes sem saber.
Trata-se de informação, escolhas conscientes e pequenos passos consistentes.
A beleza é inseparável da saúde.
E a saúde começa nas decisões que tomamos todos os dias — também com aquilo que colocamos na pele.