Corrida: perguntas e respostas com Paulo Colaço
Há uma pergunta que aparece sempre, dita de mil maneiras diferentes: “Como é que eu sei se estou a treinar bem?”
E hoje, com relógios, GPS, métricas de sono, zonas, alertas e gráficos, a confusão pode crescer à mesma velocidade da vontade de evoluir.
Nesta conversa com Paulo Colaço, reunimos algumas das dúvidas mais comuns de quem corre — desde iniciantes curiosos a corredores já consistentes — e organizámos as respostas de forma prática, clara e honesta.
A ideia é simples: usar dados sem perder a ligação ao corpo.
Perguntas e respostas
1) O relógio ajuda… ou também pode atrapalhar?
Uma das ideias mais fortes desta conversa é simples: quando o relógio passa a ser o “chefe” do treino, a corrida pode deixar de ser natural.
Paulo Colaço explica que usar o relógio de forma demasiado rígida pode levar-te a adaptar a técnica ao que o GPS mostra. E isso cria um “diálogo errado” entre aquilo que estás a sentir e aquilo que o dispositivo devolve.
O resultado pode ser um descontrolo técnico e motor: tempos de apoio mudam, amplitudes mudam e o corpo começa a correr de forma mais imposta do que orgânica.
A pergunta certa talvez seja:
“Estou a correr como o meu corpo precisa… ou como o meu relógio manda?”
2) Então o que vale mesmo a pena medir?
Com tantos dados disponíveis, a tentação é medir tudo. Mas Paulo Colaço puxa-nos para um princípio muito mais útil: simplificar.
Existem métricas relevantes — frequência cardíaca, velocidade, volume ou até parâmetros mecânicos — mas o mais importante é escolher poucos indicadores que realmente te ajudem a interpretar o teu corpo, em vez de te afastarem dele.
E aqui entra uma métrica antiga, mas extremamente atual:
Perceção de esforço.
Antes do dado, vem o corpo. Antes do gráfico, vem a experiência.
3) Frequência cardíaca: devo usar em todos os treinos?
A frequência cardíaca pode ser útil, mas com uma nuance importante.
Paulo Colaço defende que ela é especialmente valiosa numa perspetiva longitudinal, ou seja, para observar tendências e evolução ao longo do tempo — e não necessariamente para controlar obsessivamente cada minuto de cada sessão.
Em linguagem simples: pode ajudar-te a acompanhar consistência e adaptação, mas nem sempre deve comandar o treino em tempo real.
4) O que é o teste de limiar anaeróbio (lactato) — e para que serve?
Este é um dos temas mais técnicos da conversa, mas Paulo Colaço explica-o de forma muito prática.
O teste de limiar anaeróbio ajuda a identificar diferentes zonas de intensidade:
- abaixo do limiar, o corpo trabalha maioritariamente num regime aeróbio;
- acima do limiar, aumenta o recrutamento de fibras rápidas e os níveis de lactato sobem mais rapidamente.
Isto permite estruturar melhor os treinos e perceber com mais clareza quando estás num treino regenerativo ou num esforço mais exigente.
Mas há uma nota importante: não é um teste acessível a toda a gente. Ainda assim, o princípio mantém-se válido: compreender intensidades ajuda-te a treinar melhor e a evitar excesso de esforço.
5) Faz sentido treinar em passadeira?
Sim — e em certos contextos pode ser uma excelente ferramenta.
Paulo Colaço explica que a passadeira pode ajudar a controlar melhor o ritmo em treinos contínuos e prolongados, além de permitir contornar condições climatéricas menos favoráveis.
Mas deixa um ponto essencial:
A qualidade da passadeira faz muita diferença.
Existem diferenças grandes ao nível da construção, amortecimento e conforto. Em alguns equipamentos, o conforto pode ser tão bom que até permite correr descalço.
Ou seja:
✅ a passadeira pode ser uma boa ferramenta
⚠️ mas não é “qualquer passadeira em qualquer sítio”
6) Na era digital, o treinador é ainda mais importante?
Curiosamente, sim.
Quanto mais dados existem, mais precisamos de alguém que saiba interpretá-los.
Hoje temos GPS, sensores, bandas, métricas de sono e uma quantidade enorme de informação. O desafio já não é recolher dados — é perceber o que realmente significam dentro do processo de treino.
Paulo Colaço defende que o papel do treinador está a crescer precisamente por isso: gerir esta complexidade exige mais conhecimento, mais capacidade de leitura e melhor formação.
7) Jovens, telemóveis e corrida: há forma de equilibrar?
Paulo Colaço fala de uma realidade que muitos pais e treinadores reconhecem: os jovens vivem cada vez mais absorvidos por estímulos digitais, o que pode contribuir para estilos de vida mais sedentários.
Mas, em vez de entrar numa lógica de “guerra contra a tecnologia”, ele propõe outra abordagem: integrar a era digital com inteligência.
O desporto pode funcionar como uma forma de reconexão com o corpo, com objetivos pessoais e com o desejo de evolução.
E os próprios dados, métricas e ferramentas digitais podem ser usados de forma positiva — como motivação, envolvimento e compromisso.
8) A mensagem final: não basta querer. É preciso construir hábitos.
A conversa termina com uma ideia muito simples, mas profundamente importante:
Os objetivos não vivem apenas no treino. Vivem no estilo de vida.
Fala-se de descanso, alimentação, rotinas, relações sociais e da importância de cada pessoa assumir responsabilidade pelos próprios hábitos.
Desligar o telemóvel mais cedo. Dormir melhor. Comer com mais consciência. Recuperar melhor.
Porque evolução não é apenas performance. É construção de competências, consistência e compromisso com um caminho.
Para terminar
Se corres — ou queres começar — talvez esta seja a melhor síntese desta conversa:
- Usa dados, mas não te desligues do corpo.
- Simplifica aquilo que medes.
- Treino não é só correr: é também descanso, hábitos e consistência.
Se quiseres, envia-nos a tua pergunta. Podemos juntar várias e fazer um próximo Q&A com o Paulo Colaço.
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