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Alimentação

O glúten é um inimigo?

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Como é que de repente já não suportamos mais os cereais que são tão nutritivos? O que desencadeou tudo isto? Cereais tais como o trigo, o centeio e a cevada já não são bons para comer? Será o glúten um vilão? Sim e não!

“Glúten: o inimigo publico” – este é o nome do documentário emitido pela RTP3 há uns meses atrás. A nossa equipa assistiu ao programa na íntegra e ficamos surpreendidos com alguns factos – verdades duras e chocantes em relação ao que estamos a colocar dentro do nosso corpo e às práticas cruéis que estamos a ter com os nossos solos.

Por essa razão, desafiamos os nossos mentores a partilharem com a nossa comunidade o verdadeiro significado do glúten. Será que o glúten um inimigo público? Então vamos por partes.



Glúten: uma palavra desconhecida dos nossos avós que hoje ficou famosa quando o assunto é alimentação saudável.

Mas será que o aumento exponencial recente da incidência de doenças auto-imunes, inflamatórias, atopias, autismo, entre outras – tem relação com o pão nosso de cada dia?

Esta estrutura tão falada, uma fusão de duas proteínas do trigo – a gliadina e a glutenina – que se forma quando misturada com água e com energia mecânica, é muito utilizada e adorada pela indústria alimentar, pela sua capacidade em dar volume, elasticidade, estabilidade e textura aos alimentos. Mas é uma molécula muito complexa, com grande risco de gerar alergia e sensibilidades na população geral.

O principal problema que esta estrutura proteica em excesso causa é uma alteração (“quebra”) da barreira intestinal. As células do nosso intestino funcionam alinhadas como um muro, para evitar a entrada de alimentos, bactérias ou qualquer outra substancia indesejada para dento do nosso sangue. Porém, o glúten tem a capacidade de alterar essa proteção e isso gera um descontrole imunológico no nosso corpo, condição hoje relacionada com doenças como a diabetes tipo 1, a tireoidite de Hashimoto, etc…

Como deu para notar no parágrafo anterior: o problema é o excesso. Parafraseando Paracelso, “o veneno está na dose”.

O grande senão do pão de hoje é o processamento, a hibridização, a transformação genética do alimento e sua exposição à substâncias tóxicas como pesticidas e antibióticos. Aí é onde reside atualmente toda celeuma, toda confusão e toda rejeição a este cereal tão consumido e apreciado no passado.

Então, comam pão! Mas não-processado, com baixa carga de gliadina, com fermentação lenta e biológico e feito com os trigos ancestrais: Einkorn, Emmer, Barbela, … E claro, com moderação.



A DoBem pergunta: depois de teres visto e sentido o documentário e de teres escrito sobre o glúten, fica a questão: ele é ou não é um inimigo público?

O grande problema da nossa alimentação hoje, de uma forma geral, e aqui especificamente em relação ao glúten, é que deixamos de comer o alimento da forma natural e original, como fizemos ao longo da nossa existência… e hoje consumimos produtos chamados, erradamente, de alimentos, carregados de químicos (como os pesticidas) que alteram os valores nutricional do alimento e interferem com a informação que estes levam ao nosso organismo.

No caso do trigo, e consequentemente ao glúten, hoje temos um cereal, que é produzido em latifúndios e em larga escala, onde – para que sua produção seja viável – são adicionadas grandes quantidades de químicos, como por exemplo o glifosato. Este é o inimigo – aquele que veio alterar o alimento original, natural e saudável, para se tornar um agente prejudicial e promotor de doença.



Como agricultora, o que mais me chocou neste documentário, foi o que ainda não sabia: que se usa herbicida para secar/matar o cereal.

É proibido ter três ou quatro patos a nadar numa charca (mini barragem) de onde se retira a água para rega. Para rega, reforço. É permitido forçar a secagem, mais bem dito, matar o cereal com herbicida. A mera hipótese de apanharmos uma gastroenterite, cuja probabilidade de acontecer deve ser de 1/100000, tem que ser obsessivamente eliminada.

Em contrapartida, podemos ir ingerindo veneno em doses homeopáticas.

O imediato é imediatamente comprovado. O que não se comprova imediatamente não existe. E é assim que estamos.

Já sabia da enorme degradação da qualidade do cereal em prol de produções em quantidade. Já sabia de todos, e são muitos, os problemas associados aos transgénicos. Já sabia que “os transgénicos” não se reproduzem, mantendo a dependência do agricultor, esteja ele onde estiver no mundo, de uma ou duas multinacionais. Já sabia do uso de herbicida seletivo, o que elimina as ervas e deixa o trigo, a meio do ciclo de crescimento. Já sabia de tudo isto. E chegava para perceber que o trigo produzido em larga escala sacia a fome, mas não alimenta.

Não sabia, nem me passaria pela cabeça, que se usa herbicida para “secar”, melhor dito, matar o cereal. De todo o documentário emitido pela RTP3 “Glúten: o inimigo público”, este foi o dado novo para mim, por isso o que verdadeiramente me chocou.

Sim, porque tudo é uma questão de hábito. As notícias causam impacto apenas quando as ouvimos pela primeira vez. Depois esquecemos. E é com esse esquecimento que contam as indústrias alimentares.

Claro que bastaria pensar nos maiores produtores de cereal para perceber que há alguma coisa que não bate certo. Como podem a Ucrânia ou o Canadá garantir verões que lhes permitam uma secagem natural do cereal?

Como agricultora é chocante saber desta prática! Como é possível pulverizar um campo de cereal com herbicida na hora da colheita?

Para além de todos os males que vêm do produto em si, e que seriam mais do que suficientes, pergunto-me: depois de “morto” através da aplicação de um produto químico, o cereal manterá algum tipo de nutriente?

É esta a pergunta que fica.

Quanto a nós todos, enquanto consumidores, é urgente não nos “habituarmos”. O hábito faz o monge, dizem. Habituarmo-nos a ingerir produtos cultivados (custa-me chamar a isto agricultura) à base de químicos, é vestirmos o hábito da degradação da qualidade do nosso alimento. Cabe-nos sempre a nós a escolha.

 



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